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Leandro Vilar

sábado, 6 de janeiro de 2018

Religiosidade popular e Folia de Reis

No dia 6 de janeiro é comemorado anualmente em alguns países cristãos de maioria católica a chamada Festa de Reis, Folia de Reis, Reisada, Dia de Reis, Dia dos Três Reis Magos etc., festejo antigo que remonta suas raízes no período medieval europeu, associando-se a outras festividades que marcavam o período de dezembro, janeiro, fevereiro e março, época conhecida na Baixa Idade Média (XI-XV) e na Idade Moderna (XVI-XVIII) como um período de festejos que ia do Natal ao Carnaval. Sobre essa festividade trago o seguinte texto, o qual aborda um pouco a respeito. 


Religiosidade popular e Folia de Reis


Ma. Gabriela Marques Gonçalves


Introdução

Este artigo tem como objetivo fazer uma explanação inicial sobre o tema da religiosidade popular tendo como referência a Folia de Reis, a partir de uma revisão bibliográfica. Para isso é importante ressaltar que o debate teórico a cerca do conceito e as próprias características da festa na contemporaneidade exigem um olhar atento na tentativa de não reduzir essas esferas a suas fundamentações mais tradicionais.

Ressalta-se, assim como Renata Menezes (2004), que todo o esforço para delimitar este campo de estudo, bem como teorizá-lo, é de fundamental importância para a compreensão das mudanças e ressignificações que ocorreram na sociedade e, logo, nestes dois domínios que serão aqui abordados, a religiosidade popular e a Folia de Reis.

Por isso, não considera-se pertinente abandonar o conceito de religiosidade popular ao se trabalhar teoricamente algumas manifestações, no entanto é preciso ter em mente que estas já não possuem características idênticas àquelas de quando o conceito foi fortemente delimitado e por isso já não abarcam algumas definições de maneira tão sistemática quanto antes. Essas manifestações continuam sofrendo influências não só da fé de seus sujeitos e interferências da Igreja, mas também da vida social, política, cultural e econômica como um todo.

"Deveremos sempre situar as religiões que desejamos conhecer em seu contexto histórico e social, buscando as razões de sua existência na nossa realidade. [...] como conjunto de crenças e práticas sagradas professadas por determinados grupos sociais". (OLIVEIRA, 1988, p. 107).

Assim, não se deve pensar a Folia de Reis e sua religiosidade popular a partir de uma perspectiva de ingenuidade dos seus sujeitos, ou mesmo de uma supersticiosidade presente nessas narrativas das interpretações do sagrado, mas sim por meio de construções simbólicas que contribuem na (re)construção de discursos que envolvem inclusive disputas de hegemonia.

"… a ideia de uma religiosidade popular nos lembra que as religiões envolvem questões de legitimidade e estão marcadas por disputas, configurando campo de tensões entre seus membros ou fiéis, questões que devem ser incorporadas à análise, isso significa não apenas reproduzi-las, num deslizamento ingênuo por sobre as categorias nativas, mas tomá-las como um dos problemas a serem explicitados e explicados". (MENEZES, 2003, p. 2).

Partindo dessa perspectiva pode-se, como sugere Heloísa Martín (2003), desconstruir esferas fortemente delimitadas historicamente, como a própria religião. Com isso, o que antes estava demarcado dentro do conceito de religiosidade popular, pode ser entendido como constituindo uma rede complexa de elementos que compõem a própria vida, em sua cotidianeidade, assim como já destacado por Bakhtin (1999) quando nos mostra as relações de manifestações culturais como as festas, a literatura, a escultura e o teatro populares com a própria prática cotidiana da vida.

"... siguiendo Giumbelli, la religión en cuanto categoría ‘[d]essubstantivada e perpassando todo o espaço social... ficaria disponibilizada tanto para ser tratada através de seus usos nativos, quanto para sofrer reformulações conceituais e propiciar empreendimentos teóricos’ (Giumbelli 2002: 428-429) [...] es necesario analizar las prácticas – designadas como ‘religiosas’ y ‘populares’ a partir de lugares empíricos específicos – a partir de los flujos que dan integridad a la red que organiza lo social y que nos permiten dar cuenta de esos ‘híbridos’ de religión, política, etnicidad, música, género, emociones que constituyen las prácticas nativas". (MARTÍN, 2003, p. 5).

Dessa forma, será feito, primeiramente, um breve histórico sobre as origens da Folia de Reis, tradicionalmente festejada entre os dias 24 de dezembro e 6 de janeiro, que ainda hoje vive processos de reconstrução a partir dos contextos e das comunidades nas quais está inserida. Em seguida, se tentará fazer um debate a partir do diálogo entre os trabalhos de Brandão, Zaluar, Pedro Oliveira, Renata Menezes, Da Matta e Eloísa Martín sobre o que se pode entender hoje da religiosidade vivida nessa manifestação e pelos seus sujeitos. Para em seguida fazer não uma conclusão sobre o tema, mas uma síntese sobre o assunto proposto neste artigo.

Folia de Reis

A Folia de Reis tem sua origem na Europa e remonta a passagem bíblica de Mateus que conta a visita de alguns Magos a Jesus Cristo no seu nascimento. Guiados pela Estrela do Oriente, eles encontraram a manjedoura onde estava o menino e ali lhe entregaram os presentes que levavam: ouro, mirra e incenso. Mesmo com a rápida referência aos Magos, o imaginário popular conseguiu construir ao longo dos séculos uma rica narrativa sobre a visita. Os Magos foram então ganhando nome, idade, origem, quantidade e o status de Reis.

Mas antes de se tentar compreender a festa da Folia de Reis, é preciso conhecer o próprio caráter festivo existente na Idade Média entre as sociedades que ajudaram a construir a narrativa da visita dos Reis Magos, bem como o papel da Igreja na sua função de transmitir os fatos bíblicos e suas interpretações. Assim, o próprio surgimento do teatro medieval em muitos países europeus tem como base as encenações de textos litúrgicos principalmente ligados ao Natal e à Páscoa (FÉLIX e PESSOA, 2007, p. 132). À medida que estas se desenvolviam, agregavam mais elementos e enriqueciam as narrativas. Além disso, Bahktin (1999, p. 66) mostra que a própria Igreja fazia coincidir as datas das festas oficiais cristãs com as festas pagãs, a fim de cristianizá-las, sendo portanto inevitável as misturas e influências mútuas.

Paralelo às encenações da Igreja, comemorava-se no ciclo natalino a Festa dos Loucos ou Festa dos Foliões, “... ela acontecia geralmente no dia 1º de janeiro e dela tomavam parte até mesmo padres piedosos e cidadãos ordeiros, sempre portando máscaras grotescas e cantando modinhas insinuantes.” (FÉLIX e PESSOA, 2007, pg. 133). Nestas festas, a ordem estabelecida já não tinha espaço e até membros da alta sociedade estavam sujeitos à sátira dos foliões.

"Dentre os diversos temas religiosos que eram alvos de sátiras, estava também a Festa dos Reis Magos. E ela foi passada de 1 de janeiro para a Epifania, mas durava o ano todo, sob o comando de um rei - que não era um dos Magos - eleito no início de cada ano para comandar os festejos". (Heers apud FÉLIX e PESSOA, 2007, p. 133).

Tais manifestações se espalharam por grande parte da Europa e só perderam um poucode sua força por volta do século XVI com influência direta da Reforma e Contrarreforma, período marcado “pelo enrijecimento hierárquico, pela doutrinação paternalista das massas, pela extinção da cultura popular, pela marginalização mais ou menos violenta das minorias e dos grupos dissidentes.” (GINZBURG, 1987, p. 33-34).

Devido a essa grande difusão da festa pela Europa, às vezes se torna difícil definir suas origens, mas no caso da Folia de Reis é possível reconhecer Portugal como a região onde se originou a dança “Folia”. Já a tradição de se cantar os Reis, também conhecida como reisadas1 ou janeiras, não era exclusividade deste país e, segundo Jadir Pessoa e Madeleine Félix (2007, p. 139), na Alemanha estaria a provável origem desses cantares.

É a partir de todo esse contexto de influências e construções simbólicas acumuladas ao longo de quinze séculos que a Festa da Folia de Reis chega ao Brasil junto com os padres jesuítas no período da colonização portuguesa se incorporando “de maneiras diferenciadas às diversas realidades econômicas e culturais do território brasileiro” (FËLIX e PESSOA, 2007, p. 155).
Os primeiros registros da Folia de Reis no Brasil datam do século XVIII e desde então a festa se difundiu pelos estados brasileiros tendo ainda hoje grande presença na zona rural. O grande fluxo de pessoas vindas do campo para as cidades, principalmente a partir da década de 1960, fez com que a celebração também tomasse forma nas áreas urbanas brasileiras, em muitos casos com menos visibilidade e em outros com estilos próprios.

"… expressões religiosas tradicionais que, sobrevivendo nas periferias das grandes cidades, ganharam novas formas, devido às especificidades do grande contexto urbano. Mesmo sabendo que essa população das cidades guarda muitas tradições de origem rural, sabemos também que ela já tem um estilo de vida próprio, estilo este que certamente influi nas suas práticas religiosas". (OLIVEIRA, 1983, p. 911)

Apesar de ser uma festa de caráter religioso e de ter sido trazida ao Brasil pelos próprios jesuítas, é importante dizer que ela não dependia de representantes oficiais da Igreja para ocorrer, além de carregar as próprias crenças vindas com portugueses pobres que não tinham relação direta com o clero oficial ou mesmo com uma elite da Coroa. Assim, apesar das boas relações com padres e párocos de regiões próximas às de realização das festas, elas ocorriam de forma autônoma agregando valores próprios, bem como a parte profana das danças e bebidas.

É por isso que a própria divisão tradicional entre sagrado/profano elaborada por Durkheim (MARTÍN, 2003, p. 2), não tem espaço garantido nas manifestações populares da religiosidade, já que seus sujeitos não veem as danças e bebidas como um desrespeito ao santo para o qual se está comemorando, mas como elementos a mais nessa forma de devoção. O sagrado e o profano são assim parte de um mesmo ritual em uma dada comunidade.

Esta autonomia fez com que, da mesma forma como a Festa dos Loucos sofrera interferência direta da Reforma e da Contrarreforma no século XVI, o processo de romanização implementado pela Igreja Católica na segunda metade do século XIX e o Concílio Vaticano II na segunda metade do século XX também atingissem diretamente a realização das Folias de Reis no país já que, segundo Pedro Oliveira,

"se a romanização não aboliu inteiramente as práticas religiosas tradicionais, é entretanto inegável que ela contribuiu para retirar delas o seu caráter coletivo e público, relegando muitas daquelas práticas para a esfera doméstica e privada". (1983, p. 911).

Apesar disso muitos grupos de Folia de Reis conseguem manter sua devoção fazendo o giro2 em pequenas cidades, fazendas ou pelos bairros das grandes áreas urbanas. Ainda hoje, o comando das Folias seguem nas mãos de leigos, que por uma tradição familiar ou pelo envolvimento e dedicação à festa, têm a legitimidade e o respeito da gente local para manter-se à frente de sua organização. Atualmente, a função da Igreja na manifestação, quando existe, é a de ser local de saída dos grupos na noite de 24 de dezembro ou a de receber uma grande missa ao final do giro ou no domingo próximo ao dia 6 de janeiro.

"Mestre, embaixador, tirador e capitão são os nomes mais empregados na designação de uma mesma função, de enorme importância em qualquer Folia de Reis. Ele atua decisivamente na organização de todo o ritual, posicionando vozes, direcionando o giro, conferindo afinação de instrumentos etc. Mas, acima de qualquer dessas tarefas, está a sua identidade maior, a de ser o depositário do conteúdo estruturante do ritual – o ‘guardião do sagrado’ (Gomes; Pereira, 1995, p. 71). É ao embaixador que se dirigem sempre para o esclarecimento de todos os fundamentos da devoção (Pessoa, 1993). Ele deve saber o relato bíblico das origens, transformando-o em versos ou em explicações práticas do andamento da folia...". (FÉLIX e PESSOA, 2007, p. 207-208)

No caso das Folias de Reis, por exemplo, é possível encontrar muitos mestres que sabem contar toda a narrativa sobre a viagem dos Reis Magos com detalhes e acréscimos, mesmo sem terem lido a pequena passagem bíblica que narra o fato. Este conhecimento vem do aprendizado 'de ouvido' e assim contribui para dar continuidade à tradição e até mesmo enriquecer a história.

"Um tipo de saber que vive de reconstituir, o que já é conhecido de todos; que vive de recriar na memória de cada tipo de agente o repertório de crenças e ritos que fogem da prisão da leitura de todos, logo, de um tipo secular de controle erudito sobre a memória coletiva do popular. Ali é importante para o agente conhecer os segredos da cultura da classe e da comunidade e fazer sobre ela o mundo da religião local". (BRANDÃO, 2007, p. 308).

Apesar de todo esforço de interrupção das práticas de devoção mais festivas, a Folia de Reis, assim como várias outras festas religiosas, consegue manter algumas de suas características mais tradicionais. Segundo Alba Zaluar, as festas “são parte de um sistema de reciprocidade com as divindades do cosmo construído socialmente pelos homens. Esse sistema de reciprocidade, por sua vez, integra a própria visão de mundo dos agentes sociais.” (1983, p. 80).

Nas festas em geral, essa reciprocidade está presente, por exemplo, por meio do que Pedro Oliveira (1983, p. 913-914) chama de oferta de dom, forma de culto mais simples existente no catolicismo, que pode ser uma oração, os enfeites da bandeira que carrega a imagem do santo durante o giro e a oferta de esmolas ao santo, no caso da Folia de Reis. Segundo o autor, estes elementos são considerados como agrados ao santo, mantendo assim uma relação pessoal entre ele e seu devoto.

Fé e crenças na construção de uma religiosidade popular

Na bibliografia que discute a religiosidade popular parece lugar comum incluir nesta categoria as promessas, festas, novenas, peregrinações, milagres, culto aos santos, etc. No entanto, já não há um consenso quando se quer delimitar uma significação para o conceito de popular na religiosidade presente nestas manifestações. Segundo Fernandes (apud Menezes, 2003, p. 2) o “popular” apresentaria pelo menos três sentidos diferentes nos estudos produzidos até os anos 1980.

"O termo pode significar ‘a maioria da população’, por oposição à minoria; algo ‘pertencente a extratos inferiores da população’, por oposição a práticas da elite; ou ainda ‘extra-oficial’, no sentido de estar fora do controle ou da regulamentação da autoridade instituída, por oposição a uma religião ‘oficial’". (MENEZES, 2003, p. 2).

Ao se pensar a Folia de Reis, por exemplo, têm-se as duas últimas características presentes em sua manifestação, principalmente quando ela passa para o espaço urbano, onde as relações de classe se complexificam e as diferenças sociais podem ser percebidas pela própria localização dos bairros nas cidades3. Na cidade de Juiz de Fora (MG), por exemplo, todos os treze grupos de Folia em atividade atualmente são de bairros de periferia. Além disso, como foi visto, a construção e consolidação das diversas manifestações religiosas existiram sempre em espaços de disputas simbólicas, culturais, políticas, etc.

Assim, as relações entre a Igreja e o Estado ao longo da história fazem com que o caráter oficial dessas instituições, que são políticas e sociais, influencie em uma diferenciação mais facilmente demarcada com as religiosidades populares que conseguem manter-se de forma autônoma, ainda que em diálogo com elas.

"A variedade de elementos simbólicos empregados no culto aos santos, elementos estes que extrapolam largamente o código da liturgia oficial da Igreja [...] não trazem em si mesmos uma ruptura com o código simbólico católico, embora nem sempre sejam bem vistos pelas autoridades eclesiásticas. São, muitas vezes, gestos discrepantes dos gestos da liturgia oficial, mas não gestos divergentes ou antagônicos a ela. […] Suas diferenças em relação aos gestos e orações da liturgia oficial devem ser atribuídas às diferenças de classe social e de culturas, e não interpretados como formas não-católicas de culto ao santo. Tanto assim que o povo sente-se perfeitamente dentro da Igreja Católica, sem atribuir ao culto aos santos uma conotação de contestação religiosa. Não se trata, pois, de um culto paralelo ao culto oficial, e muito menos, de um culto contestador, antagônico ou substitutivo do culto oficial; trata-se, sim, de um culto onde a liberdade expressiva dos devotos não fica limitada ao código da liturgia oficial, assumindo por isso os traços próprios à cultura de cada grupo ou classe social". (OLIVEIRA, 1983, p. 918-919)

Ao mesmo tempo, a própria autonomia que provoca reações às vezes mais agressivas, como já mostrado anteriormente, por parte das religiões oficiais, faz com que essas instituições repensem suas atividades, suas maneiras de agir para com outros grupos e remodelem suas práticas em uma dialógica constante de trocas simbólicas entre o popular e a elite (GINZBURG, 1987, p. 12-13). Isso consta nas próprias Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, que recomenda que essas manifestações sejam valorizadas e estimuladas já que elas têm grande importância na iniciação à vida cristã (2011, p. 72).

No que se refere às crenças e fé desses sujeitos adeptos de uma religiosidade popular, algumas características são comuns como a devoção aos santos, o pagamento de promessas, a espera de milagres para casos de doenças e sofrimento e o pedido de proteção. Os Reis Magos, assim como outros santos católicos, são objeto de três ações do devoto: o culto, maneira de mostrar o apreço e carinho ao santo; a invocação, pedido de proteção, favores e graça; e punição, quando o santo deixa de atender um pedido ou dar proteção aos fiéis (OLIVEIRA, 1983, p. 913).

Tais características não são de exclusividade popular, mas se diferenciam de acordo com os contextos nos quais estão inseridas. É por isso que Da Matta afirma que

"todas as religiões em todos os tempos e sociedades sempre estiveram voltadas para duas tarefas simultâneas: a de justificar a ordem social existente e a de dar sentido ao sofrimento, ao acidente, à doença e à morte. A grande questão é que cada uma delas faz isso de modo diverso". (1986, p. 141).

Se antes “tudo podia ser explicado, em última análise, pela manifestação da vontade divina” (ZALUAR, 1983, p. 86), hoje os santos repartem essas responsabilidades com novas crenças ou mesmo com a falta delas trazidas com os avanços científicos, por exemplo. Além disso, no caso da Folia de Reis, alguns de seus membros participam hoje do giro não para pagar uma promessa ou pedir proteção aos santos, mas pelo fato de fazer parte de um grupo que muito vezes é visto mais pelo seu caráter artístico que religioso.

No entanto, outras características estão presentes nas festas até os dias de hoje, consideradas um espaço de reforço dos laços da rede de relações da qual fazem parte seus sujeitos, de “competição pelo prestígio e para expressar simbolicamente a unidade e os conflitos inerentes a essas relações sociais estabelecidas” (idem, p. 95).

Da mesma forma, Pedro Oliveira afirma que “promover ou participar da festa do santo é ao mesmo tempo promover ou participar do trabalho social de restauração e reforço dos laços de solidariedade do grupo” (1983, p. 929). A própria preparação da festa já é ela mesma “um ato coletivo de culto, com profundo sentido religioso” já que combina “diversos rituais durante um período mais ou menos longo de preparação e na sua realização propriamente dita” (idem, p. 921-922).

É por isso que, mesmo mantendo neste trabalho o uso do conceito de religiosidade popular, devemos compreender sua complexidade, já que nos dias atuais até a fé e as crenças partem de outros contextos e estão em processo dialógico constante com as ações de seus sujeitos. Assim, “es posible pensar que puede haber un ‘sagrado’ fuera de los grupos definidos como estrictamente ‘religiosos’ y que lo ‘religioso’ puede ser construido con elementos ‘no sagrados’...” (MARTÍN, 2003, p. 5).

Logo, as práticas de pertencimento a uma dada religião podem mudar ao longo dos tempos, mas elas provavelmente vão acompanhar também as mudanças sociais vividas pelos seus sujeitos e vice-versa, já que elas não são “apenas capazes de ‘dizer’ coisas sobre a ordem social, mas também de influir nessa ordem e, num certo sentido, contribuir para construí-la e reconstruí-la” (MENEZES, 2004, p. 28). Estas diferenças não significam dizer que uma manifestação seja mais autêntica ou verdadeira que outra, mas apenas que elas fazem parte da própria maneira de ver o mundo de cada um dos grupos sociais e assim a legitima.

Considerações finais

Todo esse debate sugere que mesmo com todas as mudanças vividas na sociedade brasileira, por exemplo, é possível destacar a característica popular de determinadas manifestações religiosas ainda que muitas de suas ações de fé e devoção não sejam exclusividade de grupos populares. Essa afirmativa pode ser feita considerando-se que “há várias maneiras possíveis de uma religião ser concretamente vivida” (MENEZES, 2003, p. 2). E é a partir dessas especificidades que o caráter “popular” deverá ser delimitado em uma dada religiosidade, já que cada grupo social mostra uma forma própria de viver a religião,

Por mais que haja normas e modelos a serem seguidos, cada grupo realizará seu giro de Folia de Reis, por exemplo, à sua maneira.

De uma região para outra e até entre folias da mesma região, cada uma tem suas características, detalhes que lhe são próprios, embora todas guardem o mesmo objetivo. Isto se deve ao fato de ser cultura popular. Os grupos não têm forma rígida, pois não há escola de formação de folião. É a continuação de uma cultura que teve início há séculos e por povos originários de várias culturas. Conforme é a cultura dos participantes, é a riqueza das participações (Vigilato, apud FÉLIX e PESSOA, 2007, p. 179).

Assim, a festa possui um caráter ambíguo da própria vida humana, pois ela consegue ser ao mesmo tempo uma representação dos pensamentos e modos de vida das pessoas em sua cotidianeidade, e também carrega seu caráter extraordinário por ser um espaço/tempo que quebra as rotinas rígidas impostas ou apresentadas principalmente pelo trabalho, pelo sistema oficial, bem como pelas relações hierárquicas. Aqui ocorre uma inversão da hierarquia social; os sujeitos tidos como subordinados, passam ao status de líderes, principalmente pelos seus conhecimentos relativos às crenças nos santos e à organização da folia.

A continuidade no uso do conceito de religiosidade popular deve vir, portanto, acompanhada da clareza de que esse conceito não é fixo e imutável e, por isso, acompanha as mudanças sociais, políticas e culturais de cada comunidade, já que, como lembra Brandão … uma formação social como a brasileira [...] opõe grupos, classes e etnias, sobrevivendo das contradições entre eles, e soma diferenças sobre categorias de pessoas dentro da classe e, sobretudo, entre as elas, multiplicando tipos diversos de interesses e aflições para todas e para cada uma (2007, p. 277).

É por isso que os cruzamentos, fusões, similitudes e até mesmo as negações de um pelo outro são constitutivos do próprio campo religioso brasileiro, mas não uma exclusividade sua. Como aponta Sanchis (1997), o processo de sincretismo estende-se ao campo, genérico, da cultura. O próprio reconhecer-se ou negar-se no outro produz de alguma forma proximidades resultando em um processo contínuo de reconstrução de conceitos e campos de estudos, estando aí o desafio de constante renovação na pesquisa acadêmica.

Segundo Bakhtin (1999, p. 43), a carnavalização da consciência ajudaria a destruir “pretensões de significação incondicional e intemporal”, liberando o pensamento e a imaginação humana para que fiquem disponíveis ao desenvolvimento de novas possibilidades, necessárias ao campo da religiosidade, como vimos.

NOTAS:
1.   Em alguns estados brasileiros a festa de Folia de Reis é conhecida como Reisado, como no estado de Alagoas. 
2.   Giro é a peregrinação feita pelos foliões que inclui um ponto inicial, a festa de partida, e um ponto final, a festa de chegada. O percurso é composto pela visita a casas de devotos que recebem a bandeira dos santos e lhes dão oferendas, fazem rezas de pedidos e agradecimentos. (FELIX e PESSOA, 2007, p. 8).
3.   Segundo o coletivo do Ponto de Cultura Escola Livre de Comunicação Compartilhada, “a questão urbana no Brasil é um reflexo da questão econômica e social. Quer dizer, os padrões de crescimento e estruturação da nossa sociedade e da nossa economia se refletem especial e espacialmente na cidade. Quer dizer, a maneira como as cidades foram organizadas no país tem a ver com a maneira com que foram organizadas nossa economia e nossa sociedade.” Disponível em http://www.ipiranga895.outraspalavras.net/site/home acesso em 10 de junho de 2012.   

Referências Bibliográficas
BAKHTIN, Milhail Milhailovitch. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento – O contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1999.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Os deuses do povo – um estudo sobre a religião popular. Uberlândia: EDUFU, 2007.
DA MATTA, Roberto. Uma religião democrática. In Explorações – Ensaios de Sociologia Interpretativa. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL 2011-2015. Documentos da CNBB 94. Edições CNBB, 49a Assembleia Geral Aparecida-SP, de 4 a 13 de maio de 2011.
FÉLIX, Madeleine e PESSOA, Jadir. As viagens dos reis magos. Goiânia: Ed. Da UCG, 2007.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
MARTÍN, Eloísa. “Religiosidad popular”: revisando un concepto problemático a partir de la bibliografía argentina. In Estudios sobre Religión. N. 15, jun. 2003 p. 1-9.
MENEZES, Renata de Castro. A benção de Santo Antônio e a “religiosidade popular”. In Estudios sobre Religión. N. 16, dez. 2003 p. 1-6.
_________________________. A dinâmica do sagrado – Rituais, sociabilidade e santidade num convento do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.
OLIVEIRA, Pedro A. Ribeiro de. Expressões religiosas populares e Liturgia. In Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 43, fasc. 172, dez. 1983, p. 909-948.
______________________________. Religiões populares. In Curso de Verão II. O. Beozzo (org.). São Paulo: Paulinos, 1988.
SANCHIS, Pierre. As tramas sincréticas da história – Sincretismo e modernidades no espaço luso-brasileiro. Disponível em http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_28/rbcs28_10 Acesso em 02 de junho de 2012.
ZALUAR, Alba. Os homens de Deus - um estudo dos santos e das festas no catolicismo popular. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.

Fonte: GONÇALVES, Gabriela Marques. Religiosidade popular e Folia de Reis. Anais do III Congresso Internacional de História da UFG: História e diversidade cultural, Jataí, 25 a 27 de novembro de 2012. 



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

100 das Revolução Russa de 1917

Neste ano a maior revolução pautada em ideologias de esquerda completou um século de ocorrência. Para que esse acontecimento não passasse em branco, decidi escrever esse texto para contar um pouco como foi o processo histórico que levou ao desencadeamento e realização dessa revolução no ano de 1917. A preocupação foi mostrar que embora tenha sido uma revolução marxista-socialista, as questões que levaram ao seu desenvolvimento perpassavam diferentes pontos de vista políticos envolvendo questões relacionadas a monarquia, absolutismo, liberalismo, conservadorismo, capitalismo, nacionalismo, socialismo, democracia, republicanismo, anarquia etc. Juntando-se tudo isso ao longo de 60 anos, tivemos o contexto de uma Rússia em mudança, mas ao mesmo tempo assombrada pela insegurança de governos instáveis e impopulares.



1) Introdução

Para entender porque uma revolução eclodiu na Rússia em plena Primeira Guerra Mundial (1914-1918) é preciso comentar um pouco dos principais fatores que confluíram para culminar essa derrubada da monarquia czarista e a ascensão de uma democracia socialista. No caso os fatores foram essencialmente de ordem econômica, política e social. 



Retrato do czar Alexandre II
A Rússia no final do século XIX era um país predominantemente rural, com uma grande população pobre e analfabeta, que desde meados daquele século promovia revoltas pelo país, tentando chamar a atenção do governo para necessidades como miséria, fome, desemprego, injustiça etc. O ano de 1861 foi um marco pois o czar Alexandre II aboliu a servidão. (REIS FILHO, 1989, p. 8-9). No caso a servidão russa não foi igual a escravidão moderna que imperou nas Américas e na África, pois enquanto na escravidão apenas os negros e indígenas eram feitos escravos, tratados sem direito algum, e considerados mercadorias, objetos, animais etc., os servos russos possuíam direitos, não eram mercadorias, eram pessoas obrigadas a servir um senhor e sua família por tempo indeterminado, o que incluía as próximas gerações. O fim da servidão na Rússia é um ponto a ser destacado. Não apenas aboliu um sistema de relação de trabalho e dependência social-política-econômica que vigorava desde a Idade Média, mas também permitiu que os camponeses que eram servos pudessem se reunir e criar "pré-sindicatos", que foram as comunas rurais, que curiosamente foi algo inventado pelo governo de Alexandre II no intuito de amparar os 23 milhões de ex-servos. 

As comunas rurais eram um fundo de terra em parte doado e vendido aos camponeses, de forma que eles pudessem assentar suas famílias e sobreviver. Essas comunas possuíam uma administração interna e eletiva regularmente. Apesar de tais características, as comunas ainda continuavam a mercê dos senhores de terra, os quais manipulavam os interesses das assembleias comunais, além de vender lotes de terras de baixa qualidade a preço elevado; por sua vez, o Estado embora fornecesse créditos para a compra desses lotes, o fazia sobre pesados juros. (REIS FILHO, 1989, p. 9). 


A partir dessa abertura política promovida por Alexandre II, deu-se início a um período de movimentos populistas chamado de narodnichestvo, cujo um dos lemas era zemla y volya (terra e liberdade). Apesar da proposta das comunas rurais promovida pelo Estado, parte da população rural não se contentou com isso, pois continuavam dependentes dos juros impostos pelo governo, e da influência política e econômica de seus antigos senhores, assim, surgiram movimentos que reivindicavam uma reforma agrária, implantação do liberalismo, industrialização do país, mais democracia, fim dos privilégios dos boiardos (aristocracia rural russa) etc., e até mesmo movimentos mais radicais que pediam o fim da monarquia e implantação de uma república. (WOOD, 2003, p. 16-17). 



"O populismo russo caracterizou-se por três elementos; 1) uma devoção mística pelo povo do campo; 2) a rejeição da industrialização por causa do preço que, na forma privatístico-concorrencial do modelo inglês, cobra das classes rurais, com a conseqüente idéia de se chegar diretamente ao socialismo partindo da estrutura comunitária tradicional própria do campo, alicerçada na comuna rural ou obstina, pulando a etapa do capitalismo; 3) e, por último, um elemento messiânico-nacionalista, que recebeu da direita eslavófila e a ela o assimila, através do qual a percepção do enorme atraso do país, tão dolorosamente sentida pelos intelectuais russos, transforma-se num sentimento compensatório de superioridade, totalmente irreal, mas nem por isso menos poderoso e eficaz come estímulo para a ação". (SETTEMBRINI, 1998, p. 679). 

Nesse ponto, o historiador Alan Wood (2003, p. 17-19) comenta que as décadas de 1860 e 1870 na Rússia, foram permeadas pelo crescimento da conscientização da população russa pelos seus direitos políticos, e o surgimento de militâncias, principalmente advindos dos camponeses. Todo esse enorme contingente que ansiava por mudanças e estava descontente com o governo, serviu de base de apoio para homens que pregavam ideais revolucionários liberais, republicanos, socialistas, marxistas etc. Alguns desses homens como Alexander Herzen (1812-1870) e Nicholas Chernyshevsky (1826-1889) influenciados pela Primavera dos Povos (1848), tentaram promover revoluções em seu país, apesar de não terem obtido êxito. Ainda assim, a semente para uma classe trabalhadora rural preocupada com seus direitos políticos, civis, melhorias sociais, econômicas e de vida, estava plantada. 


Mas além da mão-de-obra rural que representava mais de 80% da população do país, a mão-de-obra urbana com o tempo começou a se mostrar importante, e a adentrar essa luta por direitos e reformas. No final do século XIX, a Rússia começou a se industrializar. O Estado vendo que não dispunha de recursos próprios para alavancar seu crescimento interno, começou a firmar parcerias e acordos com empresas, investidores e bancos estrangeiros. O historiador Daniel Reis Filho (1989, p. 14) comenta que a economia russa naquele tempo possuía dois grandes problemas: dependência do capital estrangeiro, que era responsável por pelo menos 72% dos investimentos no país, cuja produção era focada principalmente em três setores: agricultura, indústria têxtil e indústria siderúrgica; e o fato do Estado ser centralizador, não possibilitando espaço para o desenvolvimento independente, concorrência, liberalismo, além de não fornecer direitos trabalhistas, realidade vista em outros países da época. Os operários russos não tinham direito de formar sindicatos, trabalhavam de 12 a 15 horas por dia, em condições insalubres e degradantes; recebiam um salário abaixo da média se comparado a países vizinhos; e havia casos de serem pagos em gêneros alimentícios ou com outros produtos. 


Tal fator foi preponderante para que nas décadas de 1880 a 1900, começassem a surgir militâncias para a criação de sindicatos e partidos trabalhistas, como o Grupo para a Liberação do Trabalho, iniciado em 1883. Nesse ponto, Alan Wood (2003) comenta que devido a politização dos operários russos os quais eram significativamente letrados, seus anseios e revoltas, isso permitiu que ideais socialistas e marxistas fossem bem recebidas no país, pois muitos se viam claramente inseridos no contexto apontado por Karl Marx (1818-1883). Marx em vários de seus escritos, mas especialmente no Manifesto do Partido Comunista (1848) e em O Capital (1867), assinalava a importância da união do proletário, da população em geral para combater a exploração do trabalho, a exploração da burguesia, dos bancos, dos empresários; criticava a alienação política, a alienação pelo consumismo desenfreado e vazio de sentido; criticava a mais-valia (tese central na crítica de Marx ao capitalismo); incentivava a luta por direitos trabalhistas, melhores condições de emprego e vida, pautada em sua teoria de luta de classes; incentivava a luta por reformas sociais e jurídicas que tornassem o país um lugar melhor etc. (BOBBIO, 1998). 


Embora hoje o Marxismo, o Socialismo e o Comunismo sejam considerados a mesma coisa, e até mesmo mal interpretados, eles não são iguais, mas possuem algumas particularidades em comum. Além disso, é preciso sublinhar que o socialismo abordado na Revolução Russa foi influenciado principalmente por Lenin, o qual por sua vez, já apresentava ideias diferentes das propostas por Karl Marx e Friedrich Engels (1820-1896), co-autor do Manifesto do Partido Comunista. O posicionamento político-econômico-social de Lenin ficou conhecido como Leninismo. Sendo assim, se faz necessário comentar um pouco sobre esse ativista e revolucionário. 


2) O Leninismo: 


Nascido Vladimir Illyich Ulyanov (1870-1924), mais conhecido pelo pseudônimo de Lenin, pertencia a uma família de classe média de Simbirsk, de raízes monarquistas e conservadoras. Apesar disso os três filhos de Ilya Ulyanov e Maria Ulyanov não puxaram o posicionamento político dos pais, no caso, Alexandre, Ilya Filho e Vladimir (Lenin) todos os três ainda na adolescência ingressaram em movimentos estudantis e se interessaram pelos ideias republicanos, marxistas e socialistas. Recordemos que nesse tempo a Rússia vivenciava uma onda de movimentos populistas no campo, na indústria, nas universidades, jornais etc., logo, não era incomum que os jovens russos não estivessem envolvidos com algum tipo de movimento ou militância. De qualquer forma, dos três irmãos Ulyanov, Lenin foi o que mais se destacou. Alexandre optou em agir de forma moderada, Ilya faleceu ainda cedo, após a morte do irmão do meio, Lenin ingressou na Universidade de Kazan para estudar Direito, em 1887, mas acabou sendo expulso devido ao seu envolvimento com grupos militantes radicais. 


Apesar de ter sido expulso da universidade, Lenin ainda continuou a estudar Direito e política, aprofundando-se cada vez mais no marxismo, socialismo e comunismo. Sua família mudou-se para Samara onde viveram nos anos seguintes. Lenin acabou se formando em Direito, e ingressando em grupos socialistas e marxistas. Nesse tempo ele começou a romper com a ideia dos populistas de que o socialismo seria implantado a partir dos campesinato; adotando o modelo de Karl Marx o qual defendia que o capitalismo era fundamental para o desenvolvimento do Estado, de forma a constituir as bases para a vinda do socialismo, Lenin passou a defender a industrialização, algo criticado por alas revolucionárias da esquerda russa, as quais defendiam que o socialismo não necessitava de uma etapa pré-capitalista; como também se envolveu com a organização de sindicatos não oficiais, pois o governo russo não permitia a criação de sindicatos. (SETTEMBRINI, 1998, p. 680). 



Lenin ao centro, cercado por membros da Liga de Luta pela Emancipação da Classe Operária, 1897.
Nesse tempo que morou em Samara, escreveu alguns artigos e manifestos, os quais eram impressos ilegalmente e dado a militantes. Chegou a viajar para  Suíça e a Alemanha a fim de entrar em contato como pensadores de esquerda e conseguir obras teóricas. Embora Lenin seja lembrado por ter sido um ávido militante, ele foi um intelectual e teórico. Tais condições lhe renderam uma ida a prisão. O fato do governo russo proibir a formação de sindicatos operários, e até mesmo ter proibido a manifestação pública de ideias antimonarquistas, socialistas, comunistas, republicanas e marxistas, rendeu prisão a Lenin no ano de 1895. Em 1897 ele foi sentenciado ao exílio na Sibéria, onde viveu até 1900, vindo a se casar com sua namorada Nadezda Krupskaja, mais conhecida pelo apelido de Nadya

O tempo que esteve na prisão não impediu que Lenin interrompesse seus estudos, a escrita de seus livros e o contato com pensadores, revolucionários e militantes. Nesse tempo na prisão escreveu algumas obras importantes como o Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia (1899), obra que defendia que a Rússia já apresentava uma condição capitalista, algo necessário para se conscientizar a classe operária de iniciar o movimento rumo ao socialismo. Apesar de receber críticas de alas não-marxistas e contrárias ao movimento operário e sindicalismo defendidos por Lenin, ainda assim, sua teoria que adaptava o marxismo para a realidade russa começou no início do século XX a ganhar adeptos. Em 1900, Lenin cumpriu sua prisão na Sibéria e partiu para exilio fora do país. Mesmo a distância continuou escrevendo e ganhando apoio de partidos, grupos, sindicatos e movimentos de esquerda na Europa e na Rússia. 

Em 1902 foi criado o Partido Socialista Revolucionário (PSR), em parte baseado nas propostas de Lenin. Tal condição levou ao surgimento do Leninismo termo usado para se referir ao pensamento teórico-político de Vladimir Lenin pautado no marxismo, socialismo e comunismo. No caso o pensamento político de Lenin possui ideias singulares, as quais não iremos aqui adentrar, pois requer um trabalho específico para explicar suas teorias. De qualquer forma as ideias de Lenin foram tão influentes ao ponto de criar uma cisão dentro do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), surgido em 1898, no qual Lenin era uma das principais lideranças. Assim, no Segundo Congresso Internacional do POSDR, realizado em 1903, em Bruxelas na Bélgica e em Londres, na Inglaterra, o partido sofreu uma divisão em duas alas: os Bolcheviques que defendiam as propostas de Lenin, e os Mencheviques liderados por Julius Martov

Um dos motivos que levou a cisão do POSDR se deveu a discordância de como encaminhar sua luta partidária. Lenin naquele tempo defendia ações mais enérgicas e inclusive iniciar uma revolução, enquanto Martov e seus adeptos eram a favor de esperar um pouco mais, seguir o modelo de Marx, aguardando um melhor desenvolvimento do capitalismo russo, para depois se tentar a transição ao socialismo, Lenin era a favor de uma mudança mais abrupta, alegando que as bases capitalistas já eram suficientes para se realizar a tal transição, porém, o governo absolutista do czar Nicolau II nunca iria tolerar isso, então saída era pegar em armas e pressioná-lo. (WOOD, 2003, p. 30). 


3) A crise de 1904-1905: 



Revoltas e protestos já ocorriam na Rússia desde meados do século XIX, mas em dados momentos elas se intensificavam, e os anos de 1904 e 1905 fizeram parte desse período intenso. Nessa época coincidiu com a condição que o czar Nicolau II em sua ânsia expansionista, decidiu entrar em guerra contra o Império do Japão, a fim de disputar territórios fronteiriços na Coreia e Manchúria. O conflito rendeu um saldo de 84 mil japoneses mortos e pelo menos 143 mil feridos, mas apesar desses número elevados, ainda assim, o exército russo foi derrotado. A derrota russa na Guerra russo-japonesa (1904-1905) foi desastrosa não apenas para a política expansionista de Nicolau II, mas para seu governo num todo. (HOBSBAWM, 2008, p. 410). 

A Rússia neste cinco primeiros anos do século XX, vivenciava uma turbulência interna: queda no crescimento econômico, desemprego, revoltas camponesas, operárias, estudantis, greves, fome, miséria, descontentamento da nobreza, dos militares, derrota na guerra, revolta da população pelos gastos na guerra e a perda de milhares de pais de família, tios e filhos; aumento nos movimentos republicanos e socialistas etc. Unindo-se toda essa efervescência, janeiro de 1905 começou sob uma série de protestos. A capital na época Petrogrado (atual São Petersburgo) foi palco de grande greves e protestos. No dia 5 de janeiro de 1905 reuniram-se 26 mil manifestantes, dois dias depois o número estimado já passava dos 100 mil. Os protestos de janeiro de 1905 ficaram conhecidos como Revolução Russa de 1905. (KOCHAM, 1968, p. 89). 



Fotografia de manifestantes durante os protestos de janeiro de 1905. 
Embora haja historiadores que questionem se a rotulação de revolução poderia ser usada para o movimento político oriundo das greves de 1905. De qualquer forma, revolução ou não, a situação em janeiro daquele ano piorou de forma alarmante no domingo, dia 9. Na ocasião mais de 100 mil grevistas a maioria operários, mas contando também com profissionais liberais, policiais, estudantes, comerciantes etc., se reuniu próximo ao palácio de inverno da Família Real. A manifestação era liderada pelo padre e policial Georg Gapon, o qual carregava uma lista de reivindicações para ser entregue ao czar, que na ocasião residia ali com sua família.  


"A petição enumera a seguir certas exigências políticas e econômicas 'para superar a ignorância e a opressão legal do povo russo'. Estas se assemelhavam às que haviam sido apresentadas pelos trabalhadores de Putilov. Mas também incluíam exigências de educação universal e compulsória, liberdade de imprensa, associação e consciência, libertação de prisioneiros políticos, separação entre aIgreja e o Estado, substituição da tributação indireta por imposto de renda progressivo, igualdade perante a lei, abolição dos pagamentos pela redenção, crédito a baixa taxa de juros, transferência das terras para o povo, execução das ordens do Almirantado dentro e não fora da Rússia, e término da guerra com o Japão. Finalmente, a fim de impedir a opressão do trabalho pelo capital, a petição exigiu a abolição dos inspetores fabris, uma comissão permanente de trabalhadores para os representar em cada fábrica, liberdade para organizar cooperativas e sindicatos, liberdade de luta entre trabalho e capital e seguro estatal para os trabalhadores. (KOCHAN, 1968, p. 91-92).

Todavia, essa petição não foi entregada na ocasião. O czar teria dado a ordem para repelir a manifestação, lembrando que greves eram ainda ilegais no país, e todas as que ocorriam, a polícia agia de forma violenta contra os grevistas, realizando a prisão destes, por isso Lenin foi preso duas vezes por participar de greves. Mas no caso do dia 9 de janeiro de 1905, esse ficou conhecido como Domingo Sangrento, onde a guarda palaciana abriu fogo contra os grevistas, matando pelo menos mil pessoas e deixando centenas feridos. Nicolau II teve sua boa imagem de "pai da nação" maculada e trocada para "Nicolau, o sanguinário". Os jornais noticiaram a tragédia do Domingo Sangrento em todo o país. Greves em solidariedade aos mortos e feridos eclodiram ao longo do ano. Somente nas grandes cidades industriais mais de 1,8 milhões de grevistas realizaram manifestações em 1905, isso sem contar os protestos e pequenas revoltas promovidos por operários, camponeses, soldados, estudantes, professores universitários, burgueses etc. Embora muitos fossem adeptos do socialismo, havia democratas, liberais, republicanos etc., envolvidos nas manifestações. Todos contra o governo autocrático de Nicolau II. (REIS FILHO, 1989, p. 25). 

Pintura de 1905, representando o Domingo Sangrento. 
A partir da repercussão do Domingo Sangrento, as greves gerais, protestos e manifestações pelo país, no dia 17 de outubro (30 com base no atual calendário), o czar Nicolau II assinou um "pacote" de reformas que ficaram conhecidas como Manifesto de Outubro, considerado por alguns como o resultado revolucionário. A partir desse manifesto foi legalizada greve, os sindicatos, os partidos trabalhistas, permitiu-se a criação de conselhos de deputados operários, chamados de soviets, cogitou-se a criação de leis trabalhistas, melhorias na educação, economia etc., o czar pois fim a guerra contra os japoneses, assim como, se propôs em conceder maior abertura política, instituindo a criação de uma Assembleia Legislativa Representante (Duma), a qual permitia que deputados e senadores pudessem participar da elaboração das leis, algo até então restrito. Além dessa mudanças outras ocorreram, e uma delas de caráter político foi a formação do Partido Outubrista, o qual era de caráter liberal, monárquico e conservador, o qual apoiava os interesses do governo frente as demandas dos partidos socialistas, liberais, trabalhadores etc. (KOCHAM, 1968, p. 95). 

Mesmo com a aplicação de algumas reformas propostas, a criação da Duma, o fim da guerra etc., greves e protestos ainda continuaram a ocorrer nos anos seguintes. E a situação voltaria a piorar durante a Grande Guerra. 

4) A crise da Primeira Guerra: 

Talvez o maior erro ou um dos maiores erros de Nicolau II foi declarar guerra aos alemãs, e assim adentrando ao conflito da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Quando as declarações de guerra começaram a ser emitidas em maio de 1914, os países envolvidos acreditavam que se trataria de uma guerra rápida que no máximo duraria um ano. Os motivos para a eclosão da Primeira Guerra eram motivados principalmente por fatores políticos, diplomáticos e geográficos, associados com questões de fronteira e colônias. Isso tudo foi se desenvolvendo e se intensificando na segunda metade do século XIX, até que o estopim que foi a morte do arquiduque da Áustria, Francisco Fernando, assassinado por um militante extremista em Saravejo, na Bósnia, foi o fator decisivo para que a Áustria-Hungria declarasse guerra a Sérvia. (CLARK, 2010, p. 303-304).

A declaração de guerra entre os austríacos-húngaros contra os sérvios teria sido mais um conflito regular, dos quais vinha ocorrendo entre os dois países nos últimos anos, mas a situação mudou, quando a Áustria-Hungria aliou-se a Alemanha e a Itália, solicitando suporte na vindoura guerra. Por sua vez, os sérvios buscaram ajuda dos russos. Com isso, Nicolau II cumprindo com o pacto militar, declarou apoiou a Sérvia contra a Áustria-Hungria, por sua vez, os alemãs cumprindo com sua parte, declararam guerra a Rússia. 


"No final do século XIX, o escritor militar alemão Colmar von der Goltz havia alertado que qualquer futura guerra europeia veria "um êxodo de nações", e suas palavras se provaram corretas. Em agosto de 1914, os exército da Europa mobilizaram cerca de seis milhões de homens e lançaram-nos contra seus vizinhos. Os exércitos alemães invadiram a França e a Bélgica. Os exércitos russos invadiram a Alemanha. Os exércitos austríacos invadiram a Sérvia e a Rússia. Os exércitos franceses atacaram pela fronteira da Alsácia-Lorena alemã. Os britânicos enviaram uma força expedicionária para ajudar os franceses, esperando confiantemente chegar a Berlim pelo Natal". (HOWARD, 2010, p. 49).

Apesar de a Rússia, Alemanha, França, Itália, Inglaterra entre outros países terem entrado na guerra por questões de alianças, eles também entraram por outros motivos. 


"O regime czarista, ao entrar na guerra, pretendia dois objetivos: no plano externo, garantir a hegemonia nos Bálcãs e o controle dos estreitos que dão acesso ao Mediterrâneo. Internamente, recoesionar o povo em torno do czarismo e da defesa da pátria. Os generais russos imaginavam que a guerra seria curta e vitoriosa e que o povo a apoiaria maciçamente". (REIS FILHO, 1989, p. 38).


A tentativa de evocar o patriotismo foi bem recebida por parte da população nos mais diversos segmentos sociais. Hobsbawm (1999) e Wood (2003) comentam que em 1914 a onda de protestos contra o governo, decaiu significativamente devido a atenção da população dada a guerra. Lenin na época ainda estava em exílio, e foi um dos quais manifestou-se contrário a guerra imperialista, defendendo uma guerra contra a burguesia. Todavia, muitos não levaram em consideração seu apelo. Mesmo os partidos socialistas e marxistas nesse primeiro momento aderiram a convocação nacionalista. Mas se por um lado Lenin evitou de ir para o campo de batalha, outros futuros líderes da Segunda Guerra como Hitler, Mussolini e Stalin ingressaram no conflito. 


Todavia, esse entusiasmo durou pouco. Em 1915 a situação já era assombrosa para os russos. A falta de planejamento e de logística no recrutamento, treinamento, transporte, deslocamento das tropas, abastecimento e comunicação foram determinantes para o fracasso da Rússia na Grande Guerra. No ano de 1915, dos 8 milhões de soldados disponíveis, 1,5 milhão estava morto ou ferido. Um número bastante elevado mesmo para os padrões da época. Somando-se a tal enorme perda do efetivo de combate, começou a se apresentar problemas na falta de abastecimento dos acampamentos e bases. Neste caso o abastecimento dizia respeito a comida, medicamentos, munição, veículos, roupas etc. Além da falta de suprimentos, o transporte também foi prejudicado e o recrutamento também sofreu problemas. Grande parte dos soldados disponíveis era formado por recrutas, os quais haviam sido convocados ainda em 1914, a maioria não concluiu o treinamento regular. Assim, 1915 terminava com a criação do Bloco Progressista, formado por parte dos parlamentares da Duma, representados pela nobreza e a burguesia, os quais estavam descontentes com a decisão de Nicolau II de ter adentrado na guerra e o andar do conflito. (REIS FILHO, 1989, p. 41). 


O Bloco Progressista começou a pressionar o czar por atitudes frente a guerra, além de tomar decisões relacionadas aos problemas internos que vinham se desenvolvendo na última década, além da condição de que o czar não tinha cumprido com as reformas propostas em 1905. Nicolau II indignado com isso, suspendeu a Duma, e depois a reabriu com mudanças na direção e no conselho. Em quatro meses ele nomeou três presidentes de conselho favoráveis aos seus interesses, no intuito de barrar os protestos e reivindicações do Bloco Progressista. (REIS FILHO, 1989, p. 42). 


Nicolau II em 1916 se via cada vez mais pressionado. O país estava em uma crise profunda: faltava comida, os impostos haviam subido para poder bancar uma guerra que se revelava desastrosa. Mais de 1,6 milhão de mortos, 1 milhão estava desaparecido ou desertado; 2 milhões estavam presos em diferentes países onde lutavam. O exército além de ter perdido quase metade do seu contingente, estava desmotivado e desamparado. O czar chegou a viajar para um dos quartéis-generais a fim de reverter a situação, mas sua presença pouco mudou a realidade dos planos de guerra. (LA REVOLUCIÓN RUSA, 2014, p.8). 


Grandes greves voltavam a eclodir pelo país: salários atrasados, exploração do trabalho, impostos altos, falta de alimentos, insegurança diante das revoltas e protestos; desamparo do governo etc., marcava o cenário dos anos de 1915-1916. Por outro lado, sua ausência da capital, deixou o país a frente de duas pessoas despreparadas, a czarina Aleksandra e Rasputin, o conselheiro místico e curandeiro da família real. Ambos foram alvos de boatos e calúnias. E o próprio Rasputin que era invejado e odiado na corte, foi assassinado no final de dezembro de 1916. 

  
5) Eclode a revolução: 

O cenário conturbado dos últimos três anos iria culminar na deflagração de uma revolução. Dessa vez não seria apenas algo levado a cabo por grevistas como visto em 1905, mas a população russa estaria envolvida massivamente nos protestos. Em 1917, 5,5 milhões de soldados russos estavam mortos, feridos, desaparecidos, aprisionados ou haviam desertado. Muitos destes com suas famílias estavam indignados, o que incluía não apenas os soldados, mas os capitães, majores, coronéis e generais pelo desastre de ter adentrado a Grande Guerra. Além das mortes no campo de batalha, pessoas estavam morrendo de fome, frio, doenças e pela violência promovida pelo cenário de crise no país. Em 1916, nobre e militares chegaram a cogitar um golpe de Estado, mas esse foi adiado. (COMÍN, 2017, p. 23).


Neste caso, 1917 se iniciou com novos levantes grevistas e protestos contra o governo. No dia 9 de janeiro, uma greve de 150 mil pessoas foi realizada em Petrogrado para relembrar o ocorrido no Domingo Sangrento em 1905. Além disso, algumas pessoas gritavam palavras de ordem pedindo paz, pão e terra. As manifestações em Petrogrado continuaram pelo restante do mês, motivando novos levantes em outras cidades, até desemborcar numa greve geral. Homens e mulheres passam a participar das manifestações quase diárias. As fábricas ficam fechadas por semanas. Policias e soldados aderem aos protestos. 



Marcha pelo Dia Internacional das Mulheres, em 1917. As mulheres reivindicavam fim da guerra, alimento e democracia. 
No final de fevereiro, uma greve geral já começava a ser convocada. Os bolcheviques que até então não havia aderido as greves, algo promovido principalmente pelos sindicatos operários, decidiram se unir a população. Os protestos deixaram de ter apenas um tom sindical, para ganhar um tom mais políticos. Palavras de ordem e revolução passaram a ser entoadas. O dia 26 de fevereiro de 1917, foi uma data crucial. O governo já havia ordenado o uso da força para desbaratar as manifestações e acabar com as greves, apesar de ter havido alguns casos de mortos e feridos, os números eram pequenos, comparado a tragédia de 1905. Todavia, naquela data, os batalhões de polícia e do exército em Petrogrado cruzaram os braços, negando-se a confrontar os manifestantes e grevistas, e aderindo a causa. 

No dia 27, formou-se um Soviet composto por deputados operários e soldados. Além disso criou-se também um comitê executivo para comandar o soviete, que contava com mais de dois mil membros, os quais representava os interesses do povo. O soviet formado naquela ocasião faria frente a Duma, reduto da nobreza, ocupado por monarquistas favoráveis ao czar. Porém, é preciso lembrar que a própria Duma estava dividida naquela época. O Bloco Progressista surgido em 1915, representava a dissidência interna. E isso foi um problema para o governo, o qual havia perdido parte de seu apoio. O soviet na ocasião reivindicava a convocação de uma assembleia constituinte, governo popular, o que significava fim da monarquia, e instituição de uma república, cujo líder teria que ser eleito por sufrágio universal. (COMÍN, 2017, p. 26).



Soldados russo participando de protestos em Petrogrado, no ano de 1917. 
Apesar do Soviet de Petrogrado de início agir de forma moderada, em outras cidades como Moscou, Kazan, Tver, Samara, Saratov, Pskovy, Kharkov etc., nos primeiros dias de março tiveram seus governos destituídos. Todos os representantes políticos que eram a favor do Estado autocrático foram presos, expulsos e alguns assassinados. Isso tudo foi realizado pelo povo. Curiosamente não foi algo encabeçado pelos partidos socialistas como alguns alegam; a revolução de 1917 iniciou-se com a população no geral, independente da convocação partidária. De qualquer forma, o mês de março foi decisivo para o andamento da revolução. (REIS FILHO, 1989, p. 45-46). 

Após a destituição e perseguição aos aliados do governo, Nicolau II vendo que não tinha mais nada a fazer, no dia 15 de março (2 de março no antigo calendário russo) apresentou sua abdicação voluntária, e disse que seu herdeiro direto, o príncipe Mikhail também abdicaria, algo que ocorreu no dia seguinte. Nicolau II e seu filho abdicaram mediante um acordo com a Duma, propondo que a monarquia seria mantida, mas convocaria-se uma assembleia constituinte, e tornaria-se a Rússia numa monarquia parlamentarista. No dia 20 de março o governo provisório da Duma sentenciou a família real a prisão domiciliar no Palácio Tsarkoe Tselo. Nicolau II ainda tentou solicitar exílio para sua família na França ou Inglaterra, mas o pedido foi negado devido ao clima de guerra, pois oficialmente a Rússia ainda permanecia no conflito e era inimiga de ambas as nações. Entretanto, a Alemanha decidiu agir.



Nicolau II e sua família, numa fotografia de 1915. 
Vladimir Lenin, na época com 47 anos, o qual vivia há vários anos fora da Rússia, ainda assim, era um militante reconhecido internacionalmente na Europa, foi incentivado a retornar ao seu país. O governo alemão ofereceu salvo-conduto para que Lenin deixasse a Suíça (onde estava exilado), tomando um trem que cruzaria o território alemão. Lenin chegou a Rússia no começo de abril, onde tornou público suas Teses de Abril.

6) O retorno de Lenin: 

As Teses de Abril consistiram num documento no qual Vladimir Lenin apresentava a proposta revolucionária defendida por seu partido os Bolcheviques, ala dissidente do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR). O fato se devia que o governo provisório que assumiu após a abdicação do czar e seu filho era composto por membros conservadores e ainda favoráveis a monarquia, sendo formado pelos partidos de direita dos Outubristas, Kadetes (que eram social-democratas) e Progressistas, os quais foram reunidos num novo conselho sob liderança do deputado Vladimir Lvov dos Outubristas. (COMÍN, 2014, p. 26). 


Lenin na ocasião criticou esse governo provisório que deixou de fora representantes das classes baixas, concentrando-se em si apenas representantes da nobreza e da burguesia. Se a ideia era continuar com a revolução iniciada em fevereiro daquele ano, que diga de passagem, encabeçada pelos operários, camponeses, funcionários liberais de classe baixa, porque eles estavam de fora? Assim, para tentar apaziguar o protesto apresentado por Lenin e outros, o governo provisório elegeu Alexander Kerensky, representante dos Soviets, para assumir o cargo de Ministro da Justiça. Neste caso, Kerensky levou uma série de reivindicações ao governo provisório, dentre as quais se pedia: anistia ao presos políticos, formação de milícias populares, eleição para uma assembleia constituinte, elaboração de uma constituição etc. (COMÍN, 2017, p. 26). 


O governo provisório distribuiu a anistia, reconheceu a separação da Finlândia e da Polônia, anteriormente ocupadas pela Rússia, reconheceu a jornada diária de 8 horas de trabalho entre outras reivindicações. Porém, reforma agrária, saída do país da guerra, eleições, assembleia constituinte entre outros temas eram desconversados ou sempre adiados. E isso começou a inquietar os soviets (conselhos de operários e soldados) e o restante da população. Lenin nessa época defendia que a revolução foi iniciada pela burguesia, pois embora o povo tenha ido as ruas protestar na capital e em outras cidades, foram os burgueses e nobres que destituíram os governadores, prefeitos, e forçaram a abdicação do czar e seu filho. Porém, a revolução deveria continuar, mas agora nas mãos das classes oprimidas. Com isso, Lenin a frente dos Bolcheviques procurava apoio dos Mencheviques, dos Socialistas revolucionários, dos anarquistas e dos soviets para levar a frente sua proposta de revolução do proletariado. 



Fotografia de Lenin sendo recebido por uma multidão em abril de 1917. 
No final de abril os ânimos voltaram a ficar esquentados. O Ministro do Exterior, Pavel Miliukov defendeu a permanência da Rússia na Primeira Guerra, isso desagradou a muitas alas políticas e a população, pois enquanto o país estivesse em guerra não seria possível realizar as reformas políticas propostas, além de que a crise econômica continuaria, pois as despesas com a guerra eram altas. Manifestações pedindo a saída de Miliukov do cargo eclodiram ainda em abril. O general Larv Kornílov, um dos principais nomes do Exército Russo, ordenou atirar contra manifestantes. Alguns manifestantes que incluíam civis e militares foram mortos ou feridos. Curiosamente Kornílov voltaria a ser manchete quando tentaria promover um golpe de Estado ainda naquele ano.

7) Crises em maio, junho e julho:

A morte de manifestante no final de abril, gerou mudanças de atitudes nos meses de maio e junho. Os camponeses convocaram o I Congresso de Comitês Agrários a fim de deliberar o programa de uma reforma agrária, apesar que na prática em alguns lugares do país, estes comitês já tivessem se apropriado ilegalmente das terras, e as redistribuía entre si. Não obstante, o mês de maio viu um grande aumento de revoltas rurais, pelo menos 678 revoltas em 236 distritos, número que continuaria a crescer. Por outro lado, o governo provisório continuava adiando a convocação de uma assembleia constituinte, recusava retirar-se da guerra, e reconhecer devolver territórios ocupados na Finlândia, Polônia e Ucrânia, o que gerava revoltas nestes lugares. (REIS FILHO, 1989, p. 52; COMÍN, 2017, p. 30). 


Todavia não foram apenas os camponeses que se organizaram para protestar contra o governo provisório. Nas cidades fabris, os soviets também se mobilizavam com greves e protestos para pressionar o governo que agilizasse suas reformas e convocasse eleições para uma constituinte. Em junho foi convocado o I Congresso de Soviets e Soldados que contou com mais de mil delegados, 305 soviets municipais e 53 soviets regionais. Curiosamente a maioria dos delegados e representantes advinham dos partidos dos Mencheviques e dos Socialistas revolucionários. Os Bolcheviques ainda estavam em menor número, embora Lenin estivesse fazendo seus contatos para ganhar apoio. Porém a situação piorou.



Alexander Kerensky
No mês de julho o governo provisório elegeu como Primeiro Ministro o ex-Ministro da Justiça, Alexander Kerensky (1881-1970), o qual embora tenha adentrado no governo provisório como representante dos soviets, já apresentava dúvidas quanto ao seu posicionamento político, tendo se debandando para o lado da direita, aderindo ao partido dos Kadets (Sociais-democratas). De qualquer forma, Kerensky também ajudou o general Kornílov a assumir o cargo de general-chefe do Exército Russo. Nesse ponto Kerensky tomou duas medidas importantes as quais mudaram o rumo da revolução: primeiro, ele decidiu que o Exército realizaria uma grande campanha contra os alemãs, seus principais inimigos, no que ficou conhecido como a Ofensiva de Kerensky; por outro lado, ordenou que as greves e protestos fossem punidas, dando voz de prisão a quem participasse das mesmas. Além disso, o primeiro-ministro decidiu perseguir os partidos de esquerda, no intuito de bani-los e prender seus líderes. No dia 16 de julho os Bolcheviques protestaram contra as decisões tomadas por Kerensky, reunindo pelo menos 500 mil manifestantes em Petrogrado. A polícia disparou contra os manifestantes deixando centenas de mortos e feridos. No dia seguinte o governo ordenou uma batida policial no jornal e na sede do partido, dando voz de prisão a quem estivesse presente. Um dos presos foi o intelectual e militante Leon Trótski (1879-1940), importante nome durante o governo socialista implantado a partir de 1917. Todavia, Lenin e um jovem rebelde chamado Josef Stalin (1878-1953), conseguiram escapar, mas foram para a clandestinidade. (LA REVOLUCIÓN RUSA, 2013, p. 

Kerensky decretou que Lenin era espião dos alemães, enviado para desestabilizar o governo. Assim o primeiro-ministro decretou a ilegalidade dos Bolcheviques, e também fez o mesmo com os Mencheviques e os Socialistas revolucionários, os quais só não sofreram mais, pois decidiram negociar com o governo. Todavia, Lenin considerou a negociação de seus companheiros de causa, uma covardia, e recomendou aos Bolcheviques não aderirem a tal acordo. (COMÍN, 2017, p. 30). 


8) O golpe de Kornílov: 


Embora Kornilov tenha sido eleito Comandante-chefe do Exército russo pelo primeiro-ministro Kerensky, ambos não se entendiam bem. Kornilov defendia a continuação da guerra, assim como tomar medidas urgentes e severas para conter as ondas de protestos pelo país. O mesmo também era a favor de ideias conservadoras, abolir os partidos de esquerda e até mesmo em agosto daquele ano sugeriu ao primeiro-ministro e demais ministros a possibilidade de instaurar uma ditadura militar. A ideia foi recebida de forma dividida. Kornilov era um veterano que gozava de prestígio entre parte da direita conservadora e da extrema-direita. Todavia, Kerensky recusou a proposta. A Rússia havia a poucos meses saído de um governo autoritário, e agora sugeria-se retornar-se para outro. (D'AGOSTINO, 2010, p. 46). 



Comandante-chefe Lavr Kornílov em visita a Moscou, durante as negociações do Conselho Estatal, em agosto de 1917. 
As negociações entre os ministros e Kornílov não resultaram no esperado para ele e seus apoiadores, assim ele decidiu agir por conta própria, incentivando um levante na tentativa de destituir o governo provisório. Kornílov reuniu militares que lhe eram favoráveis, ganhou seguidores entre os Outubristas e Kadetes, chegou até mesmo a oferecer o cargo de vice-presidente a Karensky, mas este recusou. Diante de tais recusas, ainda no final de agosto Kornílov tomou medidas dramáticas: espalhou o boato de que Kerensky estava negociando uma rendição com os alemãs, e que ele pretendia dar o poder aos soviets, além de outras calúnias. Por outro lado, Kornílov convocou em situação de urgência o general Krimov, enviando-o com sua Divisão Selvagem para cercar a capital Petrogrado. Na ocasião os Bolcheviques iniciaram um levante para proteger a cidade, convocando todo mundo a impedir o golpe. (COMÍN, 2017, p. 31).

O próprio primeiro-ministro Kerensky decidiu fornecer apoio a causa dos Bolcheviques, também incentivando os demais partidos e a população a defenderem a cidade, assim como, libertou bolcheviques que estavam presos e lhes deu armas para combater a divisão do general Krimov. Leon Trostky foi liberto e tornou-se comandante da chamada Guarda VermelhaTodavia, um conflito foi evitado. Kornílov e seus aliados foram presos em Moscou. Krimov cometeu suicídio e as tropas foram retiradas. (LA REVOLUCIÓN RUSA, 2013, p. 18-19).


9) A insurreição de outubro:

Com o malogro da tentativa de golpe de Estado do general Kornílov a situação do mandato de Kerensky voltara a piorar. Embora não fosse amigo de Kornílov, a indicação dele para assumir o cargo de Comandante-chefe foi sua. Mas além desse fato, o primeiro-ministro Kerensky também tinha como problema para sua imagem e governo o fato de ter libertado presos políticos e os armados, no que constituiu na Guarda Vermelha dos Bolcheviques. Em outras palavras, se antes ele havia se mostrado favorável banir os partidos socialistas e marxistas da Rússia, teve que recorrer a estes para se defender de um golpe de Estado promovido pela direita a qual ele fazia parte. 


"Kerensky salva o governo, mas sai desmoralizado por suas ligações com Kornílov. Os SRs e mencheviques ficam debilitados: a prolongada aliança com os partidos burgueses não parece justificável. A organização soviética se fortalece e cresce a pressão em favor do atendimento - imediato - das reivindicações populares - pão, paz e terra". (REIS FILHO, 1989, p. 57).


Revoltas e protestos continuavam a ocorrer pelo país. Movimentos separatistas de regiões etnicamente insurretas se realizam; Finlândia, Ucrânia e Polônia pressionam o governo para devolverem seus territórios ocupados; Alemanha continua avançando na frente de batalha, pois a Rússia ainda continuava em guerra. Os operários e soldados voltavam a gritar o lema: "Todo o poder aos soviets!". Fábricas continuavam a ser ocupadas pelos grevistas. No campo os comitês agrários confiscavam ilegalmente terras e as redistribuíam numa "reforma agrária" desorganizada. 


Apesar desse cenário caótico e da desmoralização do governo provisório e dos partidos dos Mencheviques e dos Socialistas revolucionários, os Bolcheviques saíram fortalecidos após evitarem o golpe militar de Kornílov. Embora Lenin estivesse escondido na Finlândia naquele momento de final de agosto, Trotsky estava a frente da reorganização do partido que havia deixado de ser ilegal, e agora passava a dispor de uma milicia. Não obstante, os soviets elegeram Trotsky para o cargo de presidente do Soviet de Petrogrado. Os Bolcheviques ganham eleições iguais em Moscou, Baku, Ural e em outras 50 cidades. (REIS FILHO, 1989, p. 58). A influência dos Bolcheviques também se faz ser sentida na Finlândia, Ucrânia e Sibéria. Embora que no campo os Socialistas revolucionários ainda são a maioria. (COMÍN, 2017, p. 31). 


Setembro foi decisivo para a ação dos Bolcheviques ocorrida em outubro. Lenin ainda no final daquele mês retornou para Petrogrado, reassumindo a liderança do partido e convocando reuniões emergenciais para debater o que seria feito. As tropas alemãs avançavam rumo a Petrogrado, o plano do Império Alemão era tomar a capital russa e forçar uma rendição do país. Se isso ocorresse a revolução seria abalada e talvez interrompida. A Rússia não dispunha mais de forças para barrar o avanço alemão, tão pouco estava internamente unificada, e para completar o governo legal estava desmoralizado e sem credibilidade e respeito. Nesse ponto, Lenin foi altivo ao dizer que a Rússia somente poderia resistir aquela calamidade se o povo tomasse o poder. A república que deveria ser instaurada deveria ser soviética e não burguesa. 


Outubro transcorreu caoticamente: Kerensky havia mudado os cargos no ministério, destituindo quem lhe contrariasse, como no caso do Ministro da Guerra que havia proposto um armísticio com os alemães; no Exército, os soldados estavam indisciplinados e desertavam; na Marinha, os marinheiros se rebelaram contra a ordem de abandonar suas posições, iniciando insurreições; os Socialistas revolucionários cobravam do governo reconhecimento da reforma agrária promovida pelos Comitês Agrários; os operários em greve exigiam uma reforma trabalhista e a estatização da indústria. Lenin e Trotsky cogitavam uma ação enérgica contra o governo provisório. 



Leon Trotsky
No dia 9 de outubro, Leon Trotsky fundou o Comitê Revolucionário Militar dos Soviets de Petrogrado, passo importante para a tomada do poder ainda naquele mês. Os Bolcheviques que agora eram maioria nos Soviets de Petrogrado, se mostravam favoráveis a uma ação armada. No restante do mês novas reuniões foram convocadas para mobilizar civis e militares, e conseguir armamento e munição. No dia 21 de outubro o primeiro-ministro Kerensky declarou que a mobilização militar dos soviets da capital era abusiva e deveria ser desfeita, mas os soviets se negaram acatar tais ordens. O primeiro-ministro ameaçou de declará-los rebeldes e lhes conceder voz de prisão, mas isso não os impediu com os planos. No dia 25, ocorreu a realização do II Congresso dos Soviets de Petrogrado o qual reuniu Bolcheviques, Socialistas revolucionários (de direita e esquerda), Mencheviques, anarquistas e outros grupos menores. No caso os Bolcheviques eram a maioria. (D'AGOSTINO, 2010, p. 48). O congresso seguiu acalorado ao ponto de haver desentendimento interno por parte dos Mencheviques e metade dos Socialistas revolucionários os quais discordavam de Lenin. Lembrando que apesar de todos serem partidos de esquerda, influenciados por ideias marxistas, socialistas e comunistas, cada um agia de uma forma diferente. Mas além dessa falta de consenso entre os partidos de esquerda, no II Congresso dos Soviets foi decidido a tomada do poder antes que fosse tarde. Durante a madrugada do dia 26 de outubro teve início a ação. 

Lenin e Trotsky a frente do comando da ação despacharam as ordens. As estações de trem, centrais telefônicas, correiros, arsenais, quartéis, pontes, praças foram ocupados. Trotsky mobilizou pelo menos 15 mil membros entre soldados, marinheiros, operários, camponeses, que incluíam homem e mulheres. Dois encouraçados foram posicionados para dar cobertura, o Aurora e o Amur. Inclusive as fortalezas de São Pedro e São Paulo também faziam parte da ação. As 2h da madrugada o Palácio de Inverno, sede do governo foi ocupado. Diferente da romantização que foi exibida no cinema e em livros, onde retratavam a "revolução de outubro" como gloriosa, épica, pautada numa acirrada guerra entre os revolucionários e o governo provisório corrupto e decadente. A realidade não foi bem assim. A tomada do Palácio de Inverno foi algo bem operacional, com pouco efeito colateral, apenas alguns poucos feridos e mortos, não tendo envolvido uma guerra acirrada, com trincheiras, barricadas, bombardeios e trocas de balas como visto em alguns filmes russos. (ESTOPAÑÁN, 2017, p. 37). 


10) Um novo governo, um país dividido:

"Às 5 horas do dia 26, os bolcheviques propõem formalmente que os soviets assumam o poder e formem um novo governo "que proporá paz imediata, terra aos camponeses, estatuto democrático às forças armadas, controle sobre a produção, e convocará na data determinada a Assembléia Constituinte, além de garantir o direito das nações da Rússia a disporem delas mesmas". O plenário ovaciona a proposta contra 2 votos e 12 abstenções. Pouco depois a sessão é encerrada". (REIS FILHO, 1989, p. 66).


Apesar desse ovacionamento na primeira sessão formal, pois tomada do Palácio de Inverno, não significava que a vitória estava garantida e os problemas haviam terminado. Isso era apenas o começo. Os partidos de direita como os federalistas, kadetes, monarquistas e liberais formariam uma coalização para derrubar os bolcheviques. Além disso, a própria esquerda também não estava unificada. Os socialistas revolucionários e os mencheviques cogitavam se unir para derrubar os bolcheviques e até mesmo se aliarem a direita para isso. Todavia, o governo provisório antes comandado por Kerensky, estava oficialmente destituído, e por hora o governo provisório dos soviets de Petrogrado estavam no comando. 


Ainda no dia 26 de outubro, já de noite, em nova reunião do II Congresso dos Soviets de Petrogrado, foram propostos a formulação de um armistício com os alemães, a saída da Rúsia da Grande Guerra, anistia, abolição da pena de morte, prisão de Kerensky, Kornílov e todos envolvidos nas falcatruas do governo provisório e no golpe militar de Kornílov, reconhecimento que o governo enquanto estivesse naquela condição, seria um governo popular, gerido pelos soviets e camponeses, não pelos burgueses e nobres; reconhecimento de uma reforma agrária, algo que o próprio Lenin leu na ocasião o decreto-lei. (REIS, FILHO, 1989, p. 68).



Antiga fotografia do Palácio de Inverno, em Petrogrado (atual São Petersburgo). O palácio que era a sede do governo provisório, foi ocupado pela Guarda Vermelha dos Bolcheviques na madrugada de 26 de outubro de 1917. 
Nos meses seguintes mais de cem medidas foram tomadas, as quais diziam respeito a assuntos ligados a gestão do Estado, indústria, agricultura, educação, direitos civis, direitos políticos, exército, guerra, paz, ordem pública, economia, imprensa, transporte, religião, estradas, serviços públicos, abastecimento etc. Embora o governo bolchevique estivesse obtendo êxito na aprovação dessas medidas, não significava que seu governo estivesse consolidado, esse era apenas o início da luta. Enquanto os soviets bolcheviques de Petrogrado e das grandes cidades se uniam para firmar o andar da revolução socialista que eles alegavam está em processo, a oposição se mobilizou para derrubá-los, iniciando vários conflitos armados durante este meses, além do fato, que problemas relacionados a fome, falta de abastecimento, deserções, indisciplina dos soldados, assaltos, invasões de propriedade, brigas etc., ainda continuavam a ocorrer no país. E isso tudo culminaria numa guerra civil que duraria outros quatro anos. ( Porém, isso é história para outra ocasião, pois por hora, a revolução socialista como era alegada na época, havia vencido a primeira das batalhas. (ESTOPAÑÁN, 2017, p. 39). 

Considerações finais: 


Por muitos anos a Revolução Russa de 1917 foi mal compreendida, em parte isso se deu pela manipulação deliberada da URSS em reescrever a sua origem, tendo criado um vilão (monarquia e burguesia) que deveriam ser derrotados pelos heróis (bolcheviques), mas em parte o problema de compreensão se deveu também a política anticomunista, na qual reduziu todo o movimento como se fosse um mero golpe de Estado proclamado por Lenin e seus aliados. Todavia, neste texto tentei mostrar mesmo que de forma pontual, o amplo contexto político, social, econômico e histórico que marcou a premissa para uma revolução socialista. No caso, a indignação do povo russo, sua adesão a movimentos sociais e políticos, a chegada de ideias marxistas, socialistas e comunistas, formação de sindicatos e comunas agrárias tudo isso são acontecimentos que se desenvolveram décadas antes de 1917, não foi algo que surgiu de imediato.


Como visto, desde a década de 1860, eclodiram na Rússia movimentos populares pressionando o governo absolutista dos czares, inclusive movimentos pedindo o fim da monarquia e a instauração de uma república. Por outro lado, foi a partir da década de 1880 que começou a se formalizar a ideia de sindicatos operários e comunas agrárias, mesmo que na prática os sindicatos fossem proibidos por lei. Não obstante data daquele período a chegada de ideias trabalhistas, marxistas, liberais, federalistas, comunistas, socialistas, anarquistas etc., que adentram o país, advindo de nações como Alemanha, Polônia, Ucrânia, França, Finlândia e Suécia. Mas embora a classe trabalhadora russa fosse predominantemente analfabeta, isso em parte não impediu que uma consciência de classe (usando aqui um conceito marxista), pudesse se formar. 


Essa consciência dos trabalhadores urbanos e rurais da Rússia ainda surgida na segunda metade do século XIX, foi fundamental para o desenvolvimento de partidos políticos tanto de esquerda quanto de direita, os quais reivindicavam mudanças políticas, econômicas, legais e sociais. Mas além dessa condição que levou a formação dos sindicatos e comunas, é preciso salientar que os militares tiveram um papel importante durante a Revolução de 1917. Foi a partir do descontentamento principalmente das patentes inferiores, o que permitiu uma forte adesão de soldados e marinheiros aos soviets. O fracasso da guerra russo-japonesa (1904-1905), mas principalmente as duras derrotas durante a Primeira guerra (1914-1918), foram essenciais para criar dentro das forças armadas antipatias para o czarismo, e solidariedade a ideias republicanas, parlamentaristas, socialistas e revolucionárias. 


Por outro lado, a ideia de que os Bolcheviques e Lenin foram os grandes articuladores dos eventos de 1917, não é exata. Lenin passou muitos anos fora da Rússia devido a perseguição política que sofreu. Apesar de ser um marxista e socialista, o próprio discordava de alguns pontos propostos por Karl Marx, e inclusive atropelou alguns dos conselhos dados por Marx quanto ao desenvolvimento de um Estado socialista. Nesse ponto, outro líderes bolcheviques como Leon Trotsky também cometeram o mesmo erro, ao querem através do uso da força implantar um sistema que não possuía bases sólidas para ser construído. 


Nesse ponto, a revolução de 1917 começou com base na mobilização dos soviets, comunas agrárias, militares, burgueses e nobres que forçaram a abdicação do czar Nicolau II, instaurando um governo provisório fraco, dividido e incompetente que contrariava os anseios populares por paz, comida e terra, mas que ambicionava criar um novo Estado onde eles fossem os senhores. É meio a esse dilema que os bolcheviques, que eram uma minoria ainda no começo de 1917, vão agindo por fora dos atritos entre Mencheviques e Socialistas revolucionários contra social-democratas (kadetes), nacionalistas, liberais e monarquistas, conseguiram conquistar apoio, principalmente durante o incidente do malogro do golpe militar do general Kornílov, que permitiu aos Bolcheviques a chance de constituir uma força armada e conclamar a união dos soviets a sua causa. 


Mas apesar de eles terem conseguido tomar o poder no final de outubro de 1917, isso deu início a uma guerra civil que duraria mais quatro anos, até que o socialismo pudesse triunfar na Rússia. A ideia de que o socialismo sempre venceu desde imediato, pois Lenin e seus aliados foram gênios revolucionários que jamais cometeram erro algum, não é verdadeira. Lenin, Trotsky, Stalin e os demais tiveram muitos problemas após 1917, o que resultou na mudança de atitude deles e do partido frente as propostas de organizar uma república soviética e socialista. 


De qualquer forma o mérito da Revolução Russa de 1917 consistiu em mostrar que o povo unindo-se, mesmo que sob partidos, sindicatos, ideologias diferentes, mas mantendo causas em comum poderia realmente vencer. O problema é que embora essa vitória possa eventualmente ser alcançada, a falta de uma união e coesão entre os partidos de esquerda, partidos de direita, movimentos sociais, populares e políticos pesou contra a manutenção de um governo provisório de 1917 a 1921. A unidade nacional que sempre foi alegada existindo com o proletariado urbano, rural e os militares de baixa patente nem sempre coexistiu em harmonia, tão pouco os Bolcheviques sozinhos foram responsáveis por tudo. O mérito deles esteve em conseguir estabelecer uma república socialista, a primeira oficialmente da história, que mostrou preocupação com as classes menos favorecidas, que empregou inclusive princípios comunistas como a reforma agrária, estatização da indústria, dando controle das mesmas e sua produção aos conselhos fabris, educação e saúde gratuitos, medidas para se combater a fome e a miséria etc., embora que tais ideias acabaram se perdendo durante o governo do próprio Lenin, e principalmente com a ascensão de Stalin e seu totalitarismo. 


NOTA: O famoso escritor russo Leon Tolstói (1828-1910), em alguns de seus livros abordou o tema da servidão em seu país, criticando a manutenção desse sistema servil antiquado e desumano. Isso é visto em alguns livros como Anna Karenina (1877) e  Senhores e Servos (1895). 
NOTA 2: Por mais que o czar Alexandre II tenha abolido a servidão e promovido algumas outras reformas, isso não tornou se governo popular ou satisfatório. Alexandre II foi contrário aos movimentos populares. Ele foi assassinado em 1881, por um grupo de militantes radicais que defendiam o fim da monarquia. 
NOTA 3: Normalmente as pessoas tendem a dizer que Marx odiava o capitalismo e dizia que ele não era importante e deveria ser destruído ou abolido. Mas isso não é um dado exato. Em suas obras Marx defendia a existência do capitalismo como sendo necessária para o desenvolvimento econômico e social. Em sua teoria pautada num princípio evolucionista, Marx considerava que o Estado socialista e comunista seriam evoluções do Estado capitalista. Sua grande crítica ao capitalismo era a exploração do trabalho, o lucro em primeiro lugar, a coisificação da vida, a alienação pelo consumismo etc.  

Referências bibliográficas: 

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Links relacionados:

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100 anos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)